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domingo, 24 de julho de 2011

Sina

Anteriormente na saga de Zara, o caçador de anjos:


"Vocês ouvirão, mas não entenderão;
olharão, mas não enxergarão nada.
Pois a mente deste povo está fechada:
Eles taparam os ouvidos
e fecharam os olhos." (O Evangelho de Mateus, 13. 14-15)



O ferro oxidado das correntes da algema raspavam em um barulho irritante enquanto dois policiais seguravam meus ombros como se tivessem qualquer poder sobre mim. Nós três andávamos calmamente pela delegacia como um trio de amigos tomando sorvete em um shopping center. Só faltavam as lojas, as pessoas animadas, os sorvetes... e os amigos.
(Tudo bem, não parecia nada com uma andança no shopping, era mais uma caminhada pelo apocalipse.)
Entrei numa sala. O delegado — que parecia com os guardas e com oitenta por cento das pessoas, afinal eu estava no bairro de Adachi, em Tóquio, e a Ásia inteira saiu da mesma fôrma — olhava por trás de seus óculos ovalados querendo me repreender ou algo assim. Quando me sentei, senti que seus olhos ainda me acompanhavam.
— Como você está? — Ele perguntou, naquela rapidez da língua japonesa. 
— Algemado.
— Senhor Zara, isso aqui é sério. Se você continuar com essas piadas, vai ter que levar umas palmadinhas na cara.
Não sei até hoje se ele estava tentando ser sério ou debochado com essas palavras. Só sei que um sorriso escapou no canto da minha boca e eu murmurei desculpas nada sinceras. Os policiais já tinham saído do local e esperavam do lado de fora. As algemas ainda irritavam minha pele humana.
— Conte-me o que aconteceu detalhadamente.
— O qu te contaram sobre ontem?
— Eu faço as perguntas aqui — Assumo, eu sou abusado. Oras, eu não vou morrer, pra quê vou me preocupar? — O que aconteceu naquele hospital?
— Entrei nele por volta das seis e meia. A criança estava no berçário, dormindo como um querubim — Minha voz estava firme demais, estava parecendo um psicopata. E isso não era bom — Quando eu estava pronto para enviá-la de volta ao céu, a enfermeira chegou e bateu em mim com uma bandeja ou algo assim. Aí apareceram so seguranças, a polícia... e bem, estou aqui, olhando para você.
A história não foi bem assim. Eu não seria tão facilmente detido por uma enfermeira.
Quando cheguei no pequeno berço hospitalar, lá estava ela. "HARUME, Reiko", dizia a tornozeleira de identificação dela. Seus olhinhos estavam fechados, era uma coisa linda de se ver. Na minha terra ela era Belá, um anjo exibido e vaidoso que só estava na Terra para se gabar desse feito. Um dia ele foi meu amigo, confesso.
Voltando à Reiko, eu fiquei olhando aquele corpo frágil enchendo e esvaziando com a respiração e uma estranha comoção me invadiu. O tempo em que havia vivido com humanos até então tinha surtido um efeito negativo em mim: A criação de emoções. E aí, notei que emoções só servem para atrapalhar nossas missões.
Refleti tanto em frente à criança que a enfermeira notou minha presença no berçário e me atacou ao ver a adaga que eu tirava com lerdeza da minha cintura. Foi tudo tão rápido que nem tive coragem de reagir, poderia provocar mortes desnecessárias. Então, me deixei ser levado para a sala daquele delegado arrogantemente bobo.
De certo modo, ser humano é divertido.
— Sabe, Zara... — O delegado gordo e calvo arrumou seus óculos sobre o nariz e se ajeitou na cadeira pequena demais para suas adiposidades — Você não tem documentos, você nunca foi visto pelas redondezas... Você parece ter caído do céu.
(Na verdade...)
— O que eu quero saber é por que você queria matar a recém-nascida. Por quê, Zara? Por quê?
— Senhor, a recém-nascida é um anjo.
— Toda criancinha é um anjo, é o que dizem.
— Você não me entendeu.
O gordo franziu a sobrancelha como se dissesse "eu entendi, seu babaca". Só que a verdade sobre os fatos ia muito além do rostinho angelical de Reiko. Você sabe disso, claro.
— Ela é um anjo.
— Então, ela...
— Um anjo. Anjo — Repeti para dar ênfase. Apontei para o alto pra ver se ele entendia de fato, mas o delegado ainda estava matutando.
— Você quer dizer... que ela veio do céu?
— Sim.
Lembra do papo das emoções que eu falei? Então, naquele momento outra delas surgiu em desenvolvimento na minha psique — se é que tenho psique, alma ou coisas assim: A raiva.
O delegado olhou para mim em silêncio, depois desatou em uma risada intragável e rouca. Suas banhas pareciam obstruir as pregas vocais, era tosco de se ouvir. E ele ria olhando para mim, o que me deu uma vontade repentina de ter um rifle na cintura em vez da adaga.
Mas Ele me disse "sem mortes desnecessárias, Zara". Tudo bem, sem mortes. No entanto, teria que haver uma lição.
— E você é o quê, um caçador de anjos? — Ele perguntou, ainda entre as risadas defeituosas.
— Eu também vim do céu.
— Ah é? Então prove, anjo. Não estou vendo nenhuma asa atrás de você, nenhuma auréola em sua cabeça... você parece tão anjo quanto eu.
(Ah, teria que haver uma lição. Nem que fosse fazer uma redução do estômago dele com a minha adaga.)
— Eu não posso provar que sou um anjo — Levantei da cadeira, o que fez o delegado diminuir um pouco a risada — Mas posso provar que não sou como você.
— Espera um pouco — O gordo pegou um celular daqueles com rádio e chamou os policiais que estavam na porta. Eles entraram com aquele rosto nada amigável, bem diferente de alguém tomando sorvete no shopping — Olhem esse cara. Ele quer dar um showzinho pra gente.
Já era noite, todas as luzes da delegacia estavam acesas. Senti que aquela era a oportunidade para brincar um pouco com a sanidade das pessoas. Sei que Ele pediu para que eu mantivesse discrição, mas eu estava me tornando humano demais para ignorar a ingenuidade alheia.
Concentrei minhas forças na luzes. Todas as lâmpadas, televisores, monitores de computador. Senti cada fagulha de luminosidade em volta da minha própria energia. Eles começaram a oscilar, o que fez muita gente parar de fazer suas tarefas para dar aquela olhadela para o alto. E aí, suguei tudo. Essas luzes entraram pelos meus poros e circularam em minha volta, enquanto a delegacia ficava no breu. As risadas cessaram, o falatório cessou, a delegacia cessou naquele momento em que eu era o único ponto de luz do local. Um homem iridescente de quase um metro e oitenta.
O delegado à minha frente era só uma sombra apavorada. Provavelmente estava querendo chorar no colo da mamãe ao me ver lá, ao mesmo tempo algemado e com poder o bastante para explodir o prédio inteiro. Ele finalmente percebeu que era pequeno diante de mim. Estava tudo claro para ele agora.
(Pegou o trocadilho, né? Desculpe-me, é o convívio.)
— Eu sou pura energia. Eu posso ser o que eu quiser, e se você não acredita em mim — Olhei bem fundo nos olhos dele, irradiando o medo em suas retinas engorduradas — Não irá acreditar em mais nada.
Deixei as luzes saírem. Em poucos segundos, a oscilação voltou e aí tudo estava aceso de novo. Eu era só mais um no mundo, mas o delegado não estava mais no controle da situação.
— Vocês ainda têm muito a aprender — Eu dizia, sentindo uma desconfortável tristeza sobre mim. Abaixei os olhos e mirei o vácuo enquanto todos me olhavam pelas janelas gigantescas da delegacia — Eu não sou o único entre os humanos. Vocês veem o mundo como um espelho, veem dele o que querem ver. Mas a verdade... o que vocês deveriam ver... está do outro lado. Muito além de... algemas  Quebrei aquele ferro retorcido com um tranco feito por ambos os punhos, e desvaneci.
Começo a pensar que Deus não me mandou aqui para caçar anjos. Olhando meu novo cabelo ruivo em uma vitrine na rua — estava pensando em me tornar uma mulher por um tempo, pode ser interessante —, parece que a raça humana anda perdida demais, e precisa de algo para guiá-las. Uma religião, uma música, um vestido vermelho com vários bababos inúteis que estou vendo agora atrás da vitrine. Talvez eu esteja aqui para guiar, ou para me perder junto deles.
Volto à entrada o hospital, mas algo me diz para esquecer da pequena senhorita Harume, pelo menos por enquanto. Virei o rosto para os carros na avenida e saquei um cigarro do bolso — uma das coisas boas que estão na cartilha "Anjo vs. Humano: Vantagens e Desvantagens". A coisa ruim é que logo depois de fumá-lo eu tenho que trocar de roupa, o cheiro da nicotina, alcatrão e centenas de substâncias gruda no tecido que é uma beleza.
Enfim, chega de tergiversar. Encarei cada vida que passava em cada carro. Pensei para onde iam, de onde vinham. Seus futuros, seus passados. Olhei minha situação na Terra e concluí que não era tão diferente dessas pessoas nos carros. Todos estamos boiando no meio de um oceano cheio de conflitos e de emoções. Essa é a sina que todo ser vivente tem que carregar nas costas endurecidas pelo tempo: Não sabermos a missão, mas mesmo assim cumpri-la.
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Saudaaaaaaades do meu querido Zara ! :D
Gente, como estou fazendo as coisas na pressa aqui na lan house, se tiver algum erro de digitação comenta aqui, please. Eu arrumo, deleto o comentário e o mundo fica azul, okay?
Espero que tenham gostado, porque eu... putz, eu amei, hahahahaha
Tschüss!

(p.s.: Deu alguma coisa errada na formatação, o começo do texto tem menos espaçamento que o resto. Algum staff aí por favor arrume, se conseguir, porque eu não tive sucesso. Grato :D )

sábado, 12 de março de 2011

Hora certa



Anteriormente na saga de Zara, o caçador de anjos:



“Isso também é muito triste! Nós vamos embora deste mundo do mesmo jeito que viemos. Trabalhamos tanto, tentando pegar o vento, e o que é que ganhamos com isso? O que ganhamos é passar a vida na escuridão e na tristeza, preocupados, doentes e amargurados.” (Livro de Eclesiastes, 5. 16-17)


O segurança de dois metros de altura sacou o convite de minha mão e me revistou com apalpadas e uma passada de detector de metais dos pés à cabeça. Fez um sinal com a mão, e finalmente entrei na convenção.
Logo me direcionei ao balcão de informações e tive que enfrentar mais alguns minutos de fila até uma atendente jovem — até demais, parecia ter treze anos — me dizer boa tarde e perguntar o que eu desejava.
— Queria confirmar meu lugar na palestra do Boris Farrell.
— Nome, por favor.
— Zara.
— Zara... — Ela falou, esperando eu continuar com sobrenomes.
— Só Zara. Você não vai achar outro.
— É verdade, senhor — Ela disse depois de poucas teclas apertadas — O seu lugar no salão C é o 2F. Sua presença está confirmada.
Agradeci e comecei a vagar pelos infindáveis estandes daquele espaço gigantesco. Aquela era a 16ª. Feira do Entretenimento, pela primeira vez na capital da Inglaterra. O galpão colossal abrigava representantes de editoras, gravadoras, produtoras e todo tipo de empresa que tivesse alguma ligação com o lazer, além de milhares de pessoas ávidas por novidades e entupidas de ideias e rascunhos para tentar ganhar a vida nesses estandes. Era, de fato, muito interessante, mas eu não estava lá para isso. Talvez com o Vale-Terra eu tenha mais tempo para ler trechos de livros do Dan Brown e ver curta-metragens da Pixar.
A palestra de Boris só começaria às seis, então ainda tinha meia hora de ociosidade até ter o primeiro contato com ele. Boris, ou melhor, Gaar, não seria tão difícil para levar — nem todos os anjos são selvagens como Esmirna —, só que eu teria que gastar todos os argumentos possíveis para convencê-lo de forma amigável. Ele é um gênio cultuado aqui na Terra, pode derrubar qualquer um só com palavras.
Espero que não me derrube.


Meia hora passa rápido.
Já estava acomodado na poltrona 2F do salão C seis horas em ponto, com uma garrafa de água em uma mão e as minhas espinhas na outra. Fiz bem em escurecer a cor dos meus olhos e infestar meu rosto de acne — assim eu passo mais despercebido pelas pessoas —, mas meu rosto pinicava só de pensar que nele residiam várias bolotas vermelhas com células mortas dentro.
Enfim, Boris surgiu com um sorriso escondido pelo bigode grisalho, acenou para a pequena plateia de trezentos plebeus e sentou seus noventa e cinco quilos em uma poltrona azul gigantesca. O palco da palestra foi feito para parecer com uma daquelas casas de sitcoms, cheias de coras e móveis da tendência. No fundo havia um telão onde Boris mostraria seu próximo projeto de série para a Warner Bros. pela primeira vez ao público. Era tudo muito colorido e divertido: Três pessoas foram selecionadas para sentar no sofá do lado oposto à poltrona e fazer duas perguntas cada a Boris. Não vou negar que ele se saiu bem até demais como terráqueo, até eu admiro seu bom humor e desenvoltura ao responder às questões intrincadas sobre o futuro de todas as mídias possíveis e imagináveis.
Os oitenta minutos de bate-papo — pois Boris não se comportava como se estivesse em uma palestra, e sim, em um jantar de Ação de Graças — me fizeram repensar por um momento na missão que tinha. Regras são regras, mas Gaar era mais digno de ser um homem do que muita gente que nasceu de um útero. No entanto, eu tinha que completar a tarefa e chamei um dos seguranças que iria escoltá-lo até o carro. Ele só ergueu os ombros em resposta, e disse a ele para avisar Boris de que  Zara quer falar com ele.
De algum modo muito impressionante, o segurança avisou Boris e ele voltou para o palco, me procurando. Levantei a mão direita e ele finalmente me avistou. Nós, anjos, não nos reconhecemos pelo que vemos — claro, posso virar uma garota albina de um metro e meio agora mesmo se quiser —, mas pelo que sentimos. Nós somos pura energia, e podemos sentir a energia singular de cada anjo, como um perfume ou uma nota musical.
(Só que Gaar já está há trinta e seis anos como humano, então a levantada de braço deu uma força ao velho.)
Boris mandou um segurança — o mesmo da erguida de braço — me mostrar o caminho até seu carro. Sentei no banco do carona e ele, sem frescuras, pegou o volante.
— Quer me levar, né Zara? — Gaar dizia brincalhão, atento nas ruas cinzentas de Londres.
— Querer eu não quero, mas tenho.
— Tudo bem. Está com pressa?
— Nenhuma. Você sabe que tenho todo o tempo do mundo.
— Assim como eu — E abriu um sorriso que me cativou a imitá-lo.
Poucos minutos se passaram até chegarmos em um dos casarões de Gaar, estacionarmos em sua garagem de cinco carros e subirmos para sua sala de estar. Sentei em um sofá de couro branco e ele em uma poltrona do mesmo material. Sentia que estava tendo um déjà vu, revendo Boris Farrell na palestra. Bati na minha testa cheia de acne e esqueci essa bobeira, esperando que ele falasse algo.
— Quer chá, café, suco, água... ?
— Não quero nada, obrigado.
— Nada mesmo? Não é todo dia que você vem a uma casa como essa, não?
Ele tinha razão. Gaar tinha uma residência tão bonita e ornamentada que me fez pensar se Deus não havia dado alguns palpites para a decoração. Quadros valiosos enfeitavam as paredes cáqui do local, me fazendo delirar nas cores e formas indecifráveis deles.
— Não acredito que você conseguiu tudo isso só escrevendo e dirigindo séries, Gaar...
— Nem eu — Falou, puxando uma garrafa de uísque de um compartimento logo abaixo da poltrona e enchendo dois copos. É incrível como ricos têm o costume de ter vários compartimentos secretos na casa — Tome, Zara. Um uísque faz bem.
Hesitei, mas peguei o copo e dei um gole naquele líquido ocre que queimava a garganta. Odiava beber drinques alcoólicos, mas eu precisava levar Gaar o mais rápido possível e ele estava enrolando demais, então resolvi agradá-lo. Seria mais fácil.
— Nem deu tempo de sentir saudades de você — Ele disse, e logo previ que um discurso estava tomando forma — O tempo na Terra passa muito mais rápido do que em nossos campos verdes e tediosos. A vida aqui demanda muito mais percepção, astúcia, esperteza... — Pausa para o uísque — ...São poucos os que conseguem dormir em paz depois do sol se pôr. O mundo continua girando mesmo quando queremos calma. Nunca temos paz na Terra.
— Nem mesmo você?
— Eu tenho tudo, Zara. Uma mulher linda que me ama, dois filhos que já planejam netos para mim, uma conta bancária mais do que satisfatória e um punhado de amigos para jogar mini-golfe nos momentos de tédio. Sou clamado por qualquer um que se interesse um palmo pela televisão, e sou considerado a personificação da mídia. Sou a galinha dos ovos de ouro com bigode, em resumo. Só não tenho paz.
De repente, os olhos vivos de Gaar se transformaram em dois buracos negros que sugaram toda sua luz. Seu rosto ficou abatido, e o Boris de momentos antes era só uma lembrança. Tive calafrios só de ver essa mudança brusca.
— Tenho medo, Zara. Medo desse planeta cair em outra Depressão e eu acordar com a conta zerada. Medo de encontrar meus filhos largados em um beco sujo cheirando cocaína e me mandando tomar naquele lugar. Medo do fracasso das minhas séries, de ficar no ostracismo. Medo da velhice e da falta de juventude. É só isso que penso quando minha cabeça encosta no travesseiro.
Gaar deu mais um gole no uísque e apertou os olhos para evitar que lágrimas caíssem. Era difícil vê-lo nessa situação.
— É como se eu tivesse ficado todo esse tempo aqui pra comprar algo... que não tem preço — Ele dizia entre soluços — A paz não precisa de dinheiro, de fama, de propriedades. Ela é auto-suficiente, só precisa de si mesma. Eu só posso ter paz quando tiver paz, entende?
— Sim. — Mentira.
— Não, você não entendeu.
(Filho da mãe.)
— A paz surge quando você simplesmente não se preocupa com nada. A paz é o desapego. A paz sabe que o mundo gira e que ninguém pode fazer nada contra isso. Ela te invade quando você menos espera, e vai embora sem você perceber que esteve lá. Está entendendo agora?
— Sim. — E é verdade.
— Eu criei muito com o que me preocupar, e essa é a vida que escolhi. Não tenho como voltar. Se você não viesse hoje eu estaria fadado a muitos anos de amargura na hora de dormir. Acho que finalmente aprendi a lição.
Gaar levantou, estendeu os braços e assim ficou, como um Cristo Redentor fora de forma.
— Sabe, Gaar... — Eu dizia, retirando a adaga da cintura —Pensei que eu teria que te dar um sermão para te levar, só que você fez isso por mim...
— Eu estava esperando por você há anos — Ele choramingava, com os olhos distantes e mirando o teto. Ou talvez o céu — Você ou qualquer um que viesse me buscar. Eu não sei mais como voltar ao céu por conta própria, nem me sinto digno disso. Gastei tantos anos humanos para reconhecer que... no fim, Deus tinha razão.
— Ele sempre tem — Confirmei com uma comoção gigantesca querendo imobilizar meu braço — Mas isso é óbvio, Gaar. Ninguém pode levar nada dessa vida.
— O que eu ainda acho uma pena. Até logo, Zara.
— Ei, espere — Lembrei de algo crucial aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo — Como eu vou te levar se você tem mulher, filhos...? Isso não vai dar algum pro...
— Já conversei com Gina — Gaar disse no mais calmo dos tons de voz — Ela sabe o que eu realmente sou, e vai dizer a todos que foi um aneurisma. Aí é só deixar o caixão fechado. Combinamos isso no caso de alguma, hum... saída de emergência.
— Como essa?
— Com certeza — Ele juntou as mãos e retirou do dedo anelar esquerdo sua aliança de casamento. Beijou-a, deixou a jóia em cima da poltrona e voltou à posição de Cristo Redentor — Vá logo com isso, senão serei obrigado a terminar o roteiro da minha próxima série.
E enfiei a adaga em seu pescoço, vendo-o se desfazer em plumas. Tratei de desvanecer o mais rápido possível.




Assim como Gaar, também aprendi uma lição. Olhei para as pessoas que andavam desconfiadas e apressadas pelas ruas de Londres e pensei como nada disso adiantaria na morte. Pensei como nada adianta na morte. A morte é algo distante de mim, mas não consigo deixar de pensar na ideia do Vale-Terra. E seu gostar mesmo daqui? Querer uma casa, um emprego, uma família? Não faço ideia de como será meu futuro, e Deus é metódico demais para me dar qualquer palhinha sobre ele.
No entanto, para todos os efeitos, agora sei que a vida na Terra é questão de momento. A vida é curta, a vida não espera. A vida pertence a nós; a morte pertence a Deus. E tanto uma como outra sempre vêm na hora certa.
Sempre.


-


Voltei mais cedo do que pensei que voltaria.
Melhor assim.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O pacifista





“Mas as pessoas são tentadas quando são atraídas e enganadas pelos seus próprios maus desejos. Então esses desejos fazem com que o pecado nasça, e o pecado, quando já está maduro, produz a morte.” (Carta de Tiago, 1. 14-15)


— Como ela era?
— Loira, alta, linda... parecia de Curitiba ou de Floripa.
— Pode me dar mais detalhes?
— O cabelo dela é cacheado e longo... os olhos são verdes e... e... bah, ela é perfeita.
— Perfeita?
Tive que me retirar depois daquele idiota dizer uma coisa daquelas. Uma mulher que amaldiçoa a vida de qualquer um que vá para a cama com ela está bem longe de ser perfeita. O próprio homem com quem falava — Raimundo, que comeu a loiraça há menos de uma semana — está cego de um olho e com  a pele coberta de feridas que não cicatrizam.
Antes dela, sua visão era perfeita.
Essa “mulher perfeita” é quem procuro desde que desci às ruas do centro de São Paulo. De fato, ela é um anjo de pessoa. O problema é que ela é um anjo. Um anjo que cansou da vida monástica de cordeiro de Deus e resolveu se entregar às noites paulistanas. Com a beleza estonteante que resolveu ter, entra em rodas de amigos sem dificuldade alguma, e sempre sai delas acompanhada por alguém, sem distinção de cor, sexo ou credo.
Ninguém sabe o nome dela.
Só eu sei.


O horário mais confortável para encontrá-la seria à noite, então tentei sondar todas as boates e barzinhos possíveis durante a tarde, o que me tirou muito dinheiro, mas foi extremamente agradável. Às vezes até entendo o lado dela de querer fugir do céu: A Terra é infinitamente mais divertida, com tantas pessoas diferentes, mas seguras de sua identidade... Depois desses favores, pedirei a Deus um Vale-Terra, só para curtir uma rave ou algo assim.
— Posso me sentar contigo, gato?
Imerso nesses pensamentos, nem notei a aproximação de um homem. Ele provavelmente queira me levar pra cama, mas eu estava tão preocupado com o ano fugitivo que respondi positivamente à pergunta dele. Em outras ocasiões nem responderia.
— Qual seu nome?
— Zara.
— Zara? Que nome... diferente. Bonito, mas diferente. Prazer, Samuel.
Apertamos as mãos e olhei no seu sorriso pseudo-sedutor. Eu não queria cortar o barato do mulato de moicano dando um fora, ele ainda poderia ser útil. Parecia ser familiar ao bar onde eu estava.
— O que um homem lindo como você tá fazendo sozinho nesse balcão de bar?
— Procuro por uma mulher. Você é dessas bandas aqui?
— De quinta a domingo, sim. Quem você quer?
— Uma loira de um metro e oitenta, de olho verde...
— Peitudona?
— Sim.
— Uma que tá sempre de branco?
Sim!
— Um amigo meu já transou com ela. Faz umas semanas aí...
— Teria como eu falar com ele?
— Só se você for o Chico Xavier, meu bem. Ele morreu domingo passado. Pegou uma febre que deixou ele de cama logo depois dessa loira aí.
(Maldita. Esses homens e mulheres não merecem pagar pelo seu pecado.)
— Mas você sabe onde eu posso encontrá-la?
— Hoje ela deve ficar aqui pela Augusta mesmo. Todo sábado ela vem, desde o começo do ano.
— Hum... está bem, obrigado.
— Tá, agora fala sobre a sua vida, gato.


Samuel se revelou um gay muito respeitoso. Percebeu que eu não comia da fruta dele em pouco tempo de conversa, e assim parou de me chamar de “gato”. Quando eu tiver meu Vale-Terra procurarei por ele. Dialogar com ele faz as horas se dissiparem sem muito esforço. Bem diferente do quieto Samuel que conheço há tempos.
Era nove e meia da noite quando o mulato teve de ir, era barman em uma boate. Comecei a andar pelas calçadas que estavam ficando cada vez mais lotadas, tentando achar o mulherão loiro no meio da multidão. Não parecia uma tarefa difícil, mas quando a Rua Augusta foi invadida em peso pela variada fauna paulistana notei que precisaria de uma força incrível do acaso para achá-la.
(Não que eu acredite no acaso, mas não quero ficar usando o nome de Deus em vão.)
Gente de cabelos de todas as formas, cores e tamanhos perambulavam segurando toda bebida alcoólica disponível no mercado, movidos a tropeços e zigue-zagues das pernas bambas. Não posso negar a diversão que era ver isso. Mas eu tinha um trabalho a fazer.
Entrei em uma boate aleatrória. A batida ensurdecedora da música fazia meus tímpanos se comportarem como máquinas de lavar roupa. À minha frente só conseguia ver luzes estroboscópicas me confundindo como punhados de estrelas cadentes sob meus olhos.
O inferno deve ser parecido com isso.
— O gato tá sozinho?
(“Gato” de novo? Preciso de um rosto menos atraente.)
Uma voz sussurrou nos meus tímpanos headbangers. Era um silvo dócil e que eriçaria o prazer de qualquer pessoa. Só que eu não sou uma pessoa, que pena.
— Esmirna.
— Hã?
— É o seu nome, não é?
— Zara?
Valeu, acaso.
— Com certeza. A festa acabou, hora de ir pra casa.
Quando terminei a frase, ela largou meus quadris, afastou a boca do meu ouvido e ficou lá, paralisada. Virei para ver os olhos hipnotizantes de Esmirna, agora sem vida e — com certeza — sem fé.
— Você é um anjo menor, você... você não pode me levar.
Só que ela sabia que eu podia.
Enquanto ela repetia “não pode” com a voz trêmula, dava singelos passos para trás até sair correndo para a porta da boate. Esmirna correu como nunca havia feito e se chafurdou sentada em uma viela onde estavam duas mulheres se beijando que pouco se interessaram com o anjo a poucos passos delas.
Tinha pena dela. Tanto tempo sem ser um anjo a fez esquecer que ela podia simplesmente desvanecer em vez de usar suas pernas virgens de corridas.
Eu não esqueci.
Surgi na frente dela, já ajoelhado. Agarrei seus braços, pressionei Esmirna na parede e fiquei observando o anjo desesperado, o anjo arfante, o anjo que já nem sabia o que era ser um anjo.
— Dois anos matando homens e mulheres que só queriam uma noite de farra é demais, Esmirna.
— Me deixa aqui!
— Pra quê? Pra infectar mais pessoas com o seu pecado? Eles não estão fazendo mais do que seus instintos permitem. — Eu via o anjo chorar, pedindo perdão mas ao mesmo tempo com uma expressão que indicava que faria tudo de novo se pudesse. Como um anjo pode se tornar... isso? (Pergunte a Lúcifer) — O Diabo sempre foi mais forte que você.
— Eu sou uma anja menor, Deus nem se importa comigo.Até você é mais respeitado do que eu.
— Claro, você se comporta como uma débil mental!
Agarrei o pescoço dela, procurei uma adaga na minha cintura e a encostei na jugular branca de Esmirna. Ela estava com medo da morte, imaginem só. Trocara a vida eterna por menos de um século de vida material.
— Espera — Ela dizia em um tom choroso — Posso fazer uma... uma última pergunta?
— Seja rápida.
— Por que você e não Miguel, ou Gabriel, ou até o João?
— Só eu aceitei fazer esse trabalho sujo de descer à Terra. Eles estão muito ocupados se vangloriando de suas vitórias. É só isso?
— Só.
Em poucos segundos, o pescoço rasgado de Esmirna havia sumido junto de seu corpo em plumas brancas pelo céu pouco estrelado de São Paulo. Já não havia mais sangue na adaga, e o casal lésbico voltou a se beijar depois de assistir à insólita cena.
Saí da viela pensando que Esmirna não faria mais falta no ecossistema da Augusta; saí de São Paulo concluindo que ninguém faz falta. Nessa terra de ninguém, o que interessa é a alegria, a bebedeira e a luxúria anônima. Acho que nem Samuel se lembrará de mim em poucas semanas. Talvez seja melhor assim.
E pensar que Esmirna disse que Deus não se importa com ela. Fora tão influenciada pelo anonimato festivo das boates que esquecer que para Deus todos têm um nome e uma história.
O meu nome é Zara.
A minha história você ainda vai conhecer.


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Aqui é o @mrpitanga falando, desejando uma frutífera carreira no Heavens will burn pra mim. Uma boa noite para todos (: