sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O herói do dia



Conto inspirado em: Metallica – Hero of The Day (letra)

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Já passava das… duas… ou três

Eu não fazia questão de saber as horas. Há muito tempo não sabia o que era ter uma rotina, e estava bem daquele jeito.

Desci à cozinha, peguei uma garrafa de cerveja, abri-a com certa dificuldade e comecei a andar pela casa dando breves goles. Afinal, não tinha nada para fazer no dia que estava para raiar, ou no dia de amanhã… ou em qualquer outro dia. Não é maravilhoso? Não ter nada com o que se preocupar, ter todo o tempo do mundo para reorganizar toda a sua cabeça… É um dos melhores sentimentos do mundo.


Até que vejo aquela janela. Ah, aquela janela com a luz acesa em plena madrugada. Aquela luz amarelada colorindo a ruela azulada e sem vida. Tive que desviar logo meu olhar para qualquer outra coisa. Achei um porta-retratos.
Segurei-o, passando meu polegar na parte da foto onde minha mãe estava. Sorridente, abraçada com meu padrasto e comigo. Eu, usando aparelho e com um cabelo horrível, mostrando aquele monte de ferro e borracha na boca como se tudo fosse bom e colorido.

— Mãe… ele tentou e… acabou comigo.

Coloquei o porta-retratos de volta no lugar de origem e voltei a perambular pelos cômodos silenciosos da minha casa. A luz vinda da janela continuava a me perturbar. A garrafa de cerveja começou a tremer junto à minha mão. Eu tinha logo que fazer alguma coisa.
Resolvi dar um último gole para acabar com toda a cerveja. Saí correndo para a garagem, onde peguei um galão repleto de gasolina. Com muita falta de coordenação, comecei a encher a garrafa com o combustível.
Aquele era o pior sentimento do mundo. Eu não era mais nada, minha vida era um grande quadro de natureza morta pintado em tons de cinza. Não sabia mais o que era amor, o que era afeto. Muito menos o que era ter um emprego, uma família… ter um dia que valesse a pena viver.
E você já deve ter imaginado qual o motivo. É, mulher. Aquela história de sempre, ela me trocou por outro.

(Da janela começaram a sair gritos. Eram tão sonoros que mesmo na garagem, com o barulho da gasolina caindo dentro e fora da garrafa, eu conseguia ouvir claramente.)

O grande problema é que o outro não era melhor do que eu. Ao contrário, ele era muito pior do que esse resto de homem que sou. Simplesmente porque ele me fez ser esse resto. Não por roubar a mulher da minha vida, mas por me roubar tudo.
Eu poderia até dizer o nome dele se ele não trocasse de identidade como troca de roupa. Um exímio enganador. E mestre na arte de acabar com a vida dos outros.
Não é culpa minha que agora sou um alcoólatra que só sabe beber, fumar e cheirar cocaína e assistir programas idiotas na televisão deitado em um colchão encardido jogado no meio da sala. Muito menos culpa minha ter que ficar satisfeito transando com adolescentes sem rumo tão viciadas quanto eu. É só uma questão de não conseguir mover um palmo para arrumar minha vida com medo de que tudo acabe. De novo.
Tudo o que ele me fez volta, parece que está acontecendo agora. E de fato está. Minha vida continua sendo uma sobrevida.
Peguei um pano velho, voltei à cozinha, encharquei-o com óleo e o posicionei na boca da garrafa com gasolina. O isqueiro já estava no meu bolso – acho que ele esteve lá desde que Janice cuspiu no meu rosto e disse que nosso filho era só dela.
Saí na rua, a janela ainda estava aberta e irradiando a luz amarela. Os gritos continuavam. Esperei. Sentei no meio da rua deserta, esperando alguém aparecer. E apareceu.
Janice foi à varanda, gritando por socorro. Olhou para mim, mas não tive tempo de explicar nada. Na verdade, não pude me dar a esse tempo.
O isqueiro foi parar na minha mão, e ele acendeu o pano.


Não me dei ao tempo de explicar para Janice que eu não tinha estuprado sua irmã, que eu não estava planejando fugir com outra mulher para alguma cidade dos Estados Unidos, que eu não desviei aqueles milhões da empresa onde eu trabalhava, que eu não era aquilo que ela pensava, que o culpado era aquele idiota que maltratava ela quase todo dia só por diversão, que eu estava na casa à frente da dela desde que havia perdido a razão de viver só para vê-la sofrer nas mãos dele.
Isso é o que dá ter um buraco vazio no lugar do coração.
Quando me dei conta, já estava tudo pegando fogo. Os gritos continuavam, o tempo quase parava. A lâmpada do quarto estourou, e depois daquele dia eu tinha certeza que nunca compraria uma casa de madeira.
Eu já estava correndo para dentro de casa quando me lembrei do meu filho. John Michael. Não conseguia ouvir meu bebê chorando. Talvez porque ele não seja meu. Não mais.
A janela continuava a queimar, e eu só queria me esconder. Me esconder de mim mesmo, até que um novo dia raiasse. Não sabia se eu ainda era totalmente eu. Não conseguia mais lembrar meu nome.
Rastejei para trás do sofá da minha sala, segurei nele com todas as forças que ainda me restavam e esperei. Todo aquele pesadelo poderia acabar depois do raiar do sol. Mas, lá no fundo, eu sabia que não iria. Eu estava perdido, precisava procurar por um herói. Um herói que pudesse salvar a minha vida. Porque a vida de Janice e de John já estavam perdidas.
Eu ainda tinha salvação. Eu ainda estava vivo.
Até olhar para o lado e ver o porta-retratos jogado no chão. “Provavelmente eu tropecei em todas as mobílias da casa no desespero”, logo pensei. Peguei-o de novo. Acariciei minha mãe. Ela, que também me abandonou depois de também ser enganada pelo outro homem.

— Mãe… ele ainda tenta… e acaba comigo.

Tudo ainda está acontecendo agora. Tudo é real.
Será que ainda existe um herói? Será que ainda existe essa salvação?
Será que um dia vou conseguir ouvir meu bebê chorar?

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Saudações, Nave Big Brother. -q
Esse é um texto que retirei do meu longínquo blog Clube da Fruta. Hoje não pude trazê-los um texto inédito pois a ida à Cidade Universitária consumiu minha manhã inteira. Rabisquei o caderno no ônibus, mas o que escrevi ainda não está completo.
Prometo que as soon as possible colocarei um novo texto para vocês, leitores fiéis.
E nunca se esqueçam dos banners do HWB e da tag #heavenswillburn para divulgar nossos devaneios, okay?


Abraços efusivos, e gute nacht*!


@mrpitanga
* Boa noite, em alemão.

2 comentários:

  1. "Não é maravilhoso? Não ter nada com o que se preocupar, ter todo o tempo do mundo para reorganizar toda a sua cabeça… "

    Sim, melhor sentimento de todos=DD
    Post maravilhoso², gostei muito muitoo =DDD
    #heavenswillburn ♥
    @dkdree_

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  2. seu blog é muito bom... parabéns.

    te seguindo...

    http://www.dabliugames.blogspot.com

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